Páginas

novembro 15, 2014

Trabalhando com a lua


A Mulher, a Deusa, a Lua e a magia de sangue

Por Gaia

  
Mulheres vêm sendo associadas com a lua por mais tempo do que o ser humano vem sendo humano. Diferente do homem de antigamente, mulheres conseguiam sangrar em harmonia com os ciclos da lua e sem estarem machucadas para tal.
Quando mulheres moram juntas e têm relações próximas, seus ciclos se tornam coordenados: em um ambiente propício elas tendem a ovular na lua cheia ou em um período próximo e sangrar na lua nova ou minguante. Ademais, sangue menstrual tem várias qualidades mágicas: atrai alguns animais e repele outros; e é um excelente fertilizante. Imagine o efeito que isso surtia no homem de antigamente, que sangrava apenas quando corria grande perigo ou estava muito machucado e que sobrevivia de caça e agricultura.

"A menstruação é a coisa mais regular que acontece com seres humanos. Aqui jaz o poder genuíno e o que isso significou para a história da humanidade. A menstruação e sua conexão com o movimento regular da lua nos deu o tempo em grandes medidas e proporções exatas. Sem a menstruação e as ciências de medidas que as mulheres desenvolveram ao ver primeiro a lua e então as estrelas, não haveriam relógios, não haveriam astrônomos, nem matemáticos ou físicos, nem astronautas, nenhuma arquitetura ou engenharia que nasceu das formas exatas de medidas e proporções. Nós poderíamos construir um ninho, como pássaros; mas não uma pirâmide ou retângulo ou qualquer outra forma regular e geométrica. A geometria é um presente da menstruação." 




O Cinturão da Xamã


Conforme mulheres aprendiam a controlar os produtos do seu corpo, outro resultado foi a arte mágica, que se desenvolveu a partir dessas propriedades físicas -- o poder do sangue e seu efeito em animais e plantas. A sabedoria de como usar o sangue menstrual como uma força positiva/ negativa, deu às mulheres uma magia especial para caçar, rastrear e fazer armadilhas, e para fazer truques com os animais da família, assim como com as plantas. O xamanismo e sua irmã feitiçaria, surgiram de tais artes. 

A primeira vestimenta pode ter sido um cinto menstrual -- não por recato ou limpeza, mas usado para capturar a valorosa substância do fluxo do mês para usá-la nas ciências aplicadas e na magia. Se você olhar para imagens antigas da Deusa, chamadas de "estatuetas de Vênus", você verá que a maioria delas está usando apenas "cintos" pendurados logo abaixo dos quadris.





A amiga da Mulher, Sabás e Veneração


A palavra mais antiga para menstruação significa "a amiga da mulher". Em algumas culturas, a menstruação era originalmente chamada "tupua", uma palavra Polinésia que significa "valiosa", "sagrada", "maravilhosa", "mágica"; a palavra e conceito de "tabu" se desenvolveu daí. 
Os dias de menstruação eram mantidos separados dos outros. Na Babilônia, eles eram chamados "sabbatu", de onde tiramos "sabá". Repetidas práticas onde mulheres se desenvolviam afim de ensinar, confirmar e socializar os poderes da menstruação eram chamadas por palavras derivadas de "ritu" -- na origem, rituais e ritos significam práticas menstruais públicas. 

A genitália feminina, fonte de sangue para a magia da caça e agricultura, fonte de cálculo de tempo, fonte da contagem e medição, fonte da geometria e bebês e cordões umbilicais e o conhecimento de nós, das conexões, do florescimento e frutamento e desejo -- a genitália feminina era adorada, o corpo feminino era tido como valioso como fonte e como força; tido como valioso por causa da ciência produzida em si e da riqueza de cultura que seguiu.
Então COMO fomos de "adoração" e "a amiga da mulher" para a "maldição nojenta"? A resposta é uma longa história de poder, autoridade, seus abusos e relações públicas. Uma das mais importantes e surpreendentes histórias da terra diz respeito da inveja que homens sentem de mulheres -- seus mágicos poderes de menstruar e dar à luz, e as soluções que elas criaram para lidar com isso

Nas culturas ao redor do mundo, existem práticas masculinas que envolvem algum tipo de cortes na área genital para imitar uma vagina sangrando. Por exemplo, mesmo quando um homem judeu nasce circuncidado, ele deve fazer o corte porque é necessário que esse sangue realmente flua dos genitais. em muitas tribos aborígenes isso envolve práticas mais severas -- até o corte da parte de baixo do pênis - chamada "subcisão". Em algumas tribos, mulheres mais velhas falam para as mais novas "não ria do homem menstruado". Elas sabem do que se trata - e hoje em dia, nós também sabemos.

No mito grego, o herói (originalmente aquele que era dedicado aos serviços da Deusa Hera) Héracles (mais tarde Hércules) vai a uma jornada para roubar o cinto xamânico da rainha Amazona Hipólita -- será essa, talvez, uma importante história simbólica, com uma importante mensagem para nós?

A inveja que muitos homens sentiam ou sentem dos poderes produzidos pelos corpos das mulheres constitui a base de grande parte do seu comportamento coletivo. Homens no geral começaram a imitar a menstruação com seus próprios corpos e fingindo dar a luz (por exemplo, a história de Zeus dando a luz a Deusa Atena da sua cabeça; o deus Marduk do Oriente Médio que desmembrou a Deusa Tiamat e dos pedaços do seu corpo gerou o mundo; ou o deus Cristão dando a existência ao universo através da fala). Conforme a imitação masculina da menstruação na sociedade é performada de maneira mais descarada e os homens começam a tomar o controle dos poderes que as mulheres criaram e antigamente controlaram, a menstruação autêntica é varrida pra debaixo do tapete. O sangue que a mulher produz mensalmente é escondido, proibido, declarado "impuro" e até vergonhoso. Mulheres são excluídas de vários ofícios que desenvolvemos, especialmente durante a menstruação e a gestação.

Os tabus menstruais começaram como uma maneira de proteger objetos cerimoniais do abundante poder mágico da menstruação - era temido que a menstruação era tão poderosa que poderia "diminuir" o poder de outros objetos mágicos ou ritualísticos. Só mais tarde, conforme as religiões patriarcais tomaram poder, os tabus se tornaram negativos. Hoje em dia mulheres são proibidas tanto de tocar em altares de algumas religiões como até entrar em algumas áreas de igrejas ou templos.

Derramamento de sangue masculido é considerado "purificador", enquanto ao mesmo tempo o sangue natural da mulher é considerado "sujo". O conceito de impureza ritual foi usado por homens para suprimir a esfera de influência das mulheres. O rótulo patriarcal "impuro" foi usado para rebaixar costumes matriarcais ou da Deusa. Por exemplo, o porco era sagrado para Demeter e muitas outras Deusas; então os primeiros Judeus e Muçulmanos patriarcais o declararam impuro; e isso começou a ser usado como símbolo para rebaixar todas as mulheres. 

Em vários mitos, o caldeirão era usado como o útero símbolo da Deusa, de onde todas as coisas vem e para onde todas as coisas irão para serem recicladas -- e o caldeirão foi demonizado pela religião patriarcal. 
A aranha era o aspecto simbólico da face "tecelã" da Deusa, que tece o destino de todos. Existem dúzias de exemplos parecidos. O pentagrama sagrado da Deusa, escondido no cerne da maçã, sua fruta sagrada de imortalidade -- foi transformada pela religião patriarcal em um símbolo "satânico" e a fruta transformada em um sinal negativo de rebeldia.

Da esplêndida história da menstruação como uma força de relações públicas, caracterizada por templos deslumbrantes, roupas especiais e decorações corporais, banquetes, festivais, etc -- de uma posição central para a cultura humana e a porta de entrada por onde mulheres alcançavam o status de adultas com influência política e científica -- menstruação vem sendo violentamente anulada ao longo dos séculos e transformada em um ato vergonhoso, privado, comparado a estar levemente doente ou fraca. O status e controle social das mulheres descendeu com a queda da menstruação.

A História é uma das maiores contorções que as sociedades sofreram, enquanto homens consolidam sua recém-nascida autoridade imitando, substituindo e violentamente derrubando a antiga autoridade feminina, que deriva dos poderes do seu próprio corpo.



Reinvidicando o Cinto da Xamã e a Magia da Lua


As sacerdotisas de tempos antigos ficariam enfurecidas se pudessem ver o que aconteceu com seus pães e refeições sagradas; se elas pudessem ver como estamos tirando os elementos vitais da farinha para dá-las à "vida de prateleira" (e inserindo vários químicos nela e no resto da nossa comida, produzindo efeitos nocivos à nossa saúde) de tal modo que assim várias mulheres acreditam que sua sagrada e poderosa menstruação é uma maldição. Não deve ser! Com uma nutrição sensata e práticas saudáveis, nós não sofremos com os problemas físicos que muitas sofrem com a chegada da menstruação.

Então podemos começar a reinvidicar os poderes mágicos do sangue. Nós podemos ver a lua com novos olhos, ouvir a palavra "poder" com uma nova compreensão. 


Mulheres por todo mundo começaram novamente a celebrar seu sangue sagrado com a menarca e outros rituais menstruais. Elas estão aprendendo a trabalhar *com* seu ciclo natural ao invés de contra ele. Menstruação supostamente é um sinal para um momento de virar-se pra dentro, se libertar de coisas antigas para abrir caminhos para as novas. Mulheres estão novamente usando seu tempo menstrual para trabalhar com habilidades "lunares" como meditação, escrita, divinação, tentar se entender melhor, liberando e banindo qualquer problema antigo para abrir caminho para crescimento e um olhar para fora, energia produtiva para o próximo ciclo. ISSO é o que realmente significa trabalhar com a Lua, com nossos próprios ciclos. É quando tentamos lutar contra esse ciclo natural é que temos problemas com ele.





Imagens: 28 Dias

Nenhum comentário:

Postar um comentário