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março 06, 2014

Filas preferenciais deveriam ser uma opção rápida para quem não aguenta muito tempo em pé ouvindo música ambiente de supermercado devido à idade, gestação ou ao fato de portar um ranhentinho nos braços, mas quase nunca é o caso.
Em uma dessas esperas intermináveis para comprar apenas alguns corantes de comida passei um tempo observando o casal da frente. A mulher deveria estar nos primeiros três meses de gestação ou só fingindo isso para entrar na fila que em tese era mais rápida, mas para o enriquecimento dessa história vou assumir que havia gravidez. Casal-padrão, comentando sobre a turma da faculdade particular de direito na qual se formaram, falando sobre coisas que viram no facebook, fofocas de família. Zzz. Desliguei a atenção e resolvi olhar para o Leon, que adora me ajudar a segurar as coisas na hora das compras e estava sacudindo uma embalagem de corante comestível. Sacode pra lá, sacode pra cá, a embalagem acabou caindo no chão.
Andar com o bebê em um sling wrap tem milhões de benefícios, pegar coisas no chão não é um deles. Muito impraticável, apesar do Leon adorar o movimento todo. Se compadecendo com minhas limitações, a moça da frente resolveu abaixar e pegar para mim.
Eu estava com um vestido que bate no joelho e, veja bem, depois de anos de feminismo e da maternidade eu realmente não me importo em depilar as pernas e não ligo de sair mostrando-as por aí. Havia frondosos pelos, crescendo de maneira meio feia e irregular por causa de anos de depilação, mas ainda ostentavam um ar de graça. Opinião obviamente não compartilhada pela moça, já que ao levantar, entregar a embalagem e me fitar nos olhos, a expressão era de um horror tão intenso que nem consegui me sentir oprimida pelo patriarcado, só senti pena. Imagino que ela deveria estar pensando "será que vou ficar assim depois que tiver filho?", o velho medo do desleixo pós-gravidez. Foi tanta, mas tanta pena daquela cara que senti vontade de falar "não é culpa do bebê não amiga, é só political statement mesmo".
Eis que ontem de madrugada, que é o horário que tenho para tomar banh
o, resolvo que enchi o saco da cabeleira das pernas e vou passar a lâmina. Passo uma mão, passo duas mãos... choro de nenem. Saí com a perna meio pelada e assim permaneci até agora. É... acho que fiz certo em tocar o terror na moça com a imagem das cabelas.
Brace yourselves, maternidade não é comercial da natura não.
Mas é menos sufrido se você não dá uma singela foda.



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