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fevereiro 20, 2014

Espelho, espelho... meu?

Há meses se deu o azar. O espelho não tinha lugar fixo na parede, rodava de canto em canto para me ajudar a visualizar as coisas (tudo o que não gostava em mim, no caso). Uma noite o esqueci no chão ao lado da cama e puf - Isaac estilhaçou-o a acordar. Sete anos de azar a ele e a maldição em cima de mim, ou pelo menos era o que achava.
Fui criada mulher. Ou seja: oitenta porcento da minha energia vital costumava ir para questionamentos acerca da aparência. Será que essa blusa marca minha barriga? Será que essa calça deixa minha perna muito gorda? Será que se eu sentar assim vai dar para ver que quando minhas pernas dobram sobram umas gorduras para o lado? Será que se eu olhar os outros nos olhos eles irão notar que tenho leve estrabismo? Nunca para. Mesmo após sérias sessões de auto-conhecimento e auto-amor, coisas como essas acabavam acontecendo. Não vou fazer um tratado feminista aqui, mas sabe como é, é assim que os nossos pais, os programas de tevê, as músicas, as revistas, os filmes ensinam. Tá soterrado na cabeça. E o espelho é o maior aliado nisso. Antes ele fosse o espelho mágico da Rainha Má da Branca de Neve, esse sim tinha palavras doces a proferir.
Mas de uma hora pra outra me vi sem aquela sessão de dez minutos que basicamente consiste em tentar achar algo na sua própria aparência para te deixar triste. De início pensei "maldição, vou sair com chiclete grudado na bunda sem notar". Maldição, maldição, maldição. Até chegar a etapa em que eu simplesmente vestia uma roupa e saía. Sem checar, sem chorar, sem desistir do programa. Continuava pensando "maldição, estou maltrapilha", mas sem de fato me sentir mal comigo mesma. Até que chegou a um ponto em que, sem o espelho para apontar nada, colocava uma roupa que achava bonita, uma maquiagem que achava bonita, e me sentia assim - FLAWLESS. Quem ia provar o contrário?
Não havia reparado tamanha mudança acerca do meu auto-julgamento, até que fui passar as férias na casa do meu pai. No quarto em que dormia havia um enorme espelho de corpo inteiro de frente para a cama. O feng shui desestimula a prática de apontar espelhos para a cama, acho que é por causa da tamanha carga energética negativa que cai sobre sua cabeça ao se olhar acordar. Que a apreciação da nossa beleza matinal fique para os nossos co-habitantes da cama, para nossos amantes, eles sabem fazer isso bem.
E não acabava aí. Ocupando toda a porta do banheiro havia outro espelho de corpo inteiro. Se despir para entrar no banho era doloroso - e não há como não olhar. Na saída, com o vapor embaçando tudo e dando lugar apenas a formas não muito claras, até que dava para se gostar um pouquinho. Elevador do prédio - outro espelho de corpo inteiro. Que cansativo. Na casa da minha avó: um espelho gigante ocupando a sala inteira. Me olhei tanto nessas férias que fiquei triste, encolhi a cabeça e voltei a me odiar e a pensar milimetricamente no que vestir, como vestir, quando vestir. Voltei exausta de tanto me odiar, mas a realidade de falta de reflexos me deu um abraço apertado.
Não digo que atualmente eu esteja cem porcento contente comigo mesma. Às vezes ainda faço o ritual dos dez-minutos-se-odiando, mas na webcam. Como a resolução é baixa, tenho menos pixels para menosprezar. Mas, sem dúvidas, um exercício importantíssimo no exercício do auto-amor de cada dia é pegar uma marreta e acabar com seu espelho. São sete anos de azar e uma mente tranquila.

(valeu Isaac ♥)

Um comentário:

  1. que texto lindo, sacha. força no auto amor ♥ te admiro muito e sou doida pra ver seu bem :-)

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