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novembro 06, 2013

As Pessoas da Semana II

1.

Quem mora em Brasília sabe que existe um consenso no ar: se nós não nos conhecemos direito, não nos cumprimentamos na rua. Eu, particularmente, acho esse consenso incrível, pois morro de preguiça de interação social, mas há quem não suporte e ache indício de má educação. Apesar de ter preguiça de pessoas e achar o fato de não ser obrigada a falar com elas por cordialidade algo maravilhoso, quando alguém quebra esse status quo do Homem Brasiliense costumo ficar bem comovida. E uma pessoa que ultrapassa a barreira do acordo socialmente pré-estabelecido merece uma admiraçãozinha. Portanto, uma das pessoas que me cativou essa semana foi a Roberta. 
Eu estava pelos arredores, catando dentes-de-leão. Então vejo passar em uma bicicleta muito legal essa moça que sempre vejo pela UnB, mas com quem nunca conversei. Ela me olha intrigada, para a bicicleta e desce falando: "nossa, seu bebê é muito fofo" (reação padrão, até aí ela não tinha lugar nesse pódio), mas então completa com "eu sempre te vejo pela UnB, será que já fizemos matérias juntas? prazer, sou roberta". E me proporcionou uma conversa agradável por alguns minutos. Pessoas simpáticas como ela me fazem esquecer da trava social que tenho e pessoas simpáticas que param seu percurso de bicicleta para serem adoráveis merecem uma boa nota aqui.
NOTA: ♥♥♥♥


2.

Saindo do campo das pessoas simpáticas e indo a outro extremo - para mostrar que existe admiração por todo tipo de gente aqui.
Esses dias o Leon ficou com o corpo todo vermelho e no dia seguinte minha mãe passou aqui para nos levar ao médico e ver o que havia acontecido. Fomos atendidos quase que instantaneamente. Quando a pediatra abriu a porta, vi um cabelo bem bonito e volumoso e uma cara apática. Apatia não me amedronta, mas causa reações engraçadas na minha mãe, que é um ser extremamente sociável a quem o silêncio parece ofensa. Não sou muito fã desse modo de agir, por isso a pediatra, que ignorou as atitudes da minha mãe, está mais do que apta a ganhar um lugar aqui. Primeiro eu falava sobre o problema e ela foi rápida: é alergia, com certeza. Do nada, minha mãe acha pertinente adicionar: "nossa, mas tá vazio aqui, né? o hospital tá fechando?" - e foi ignorada prontamente. A médica continua: "não pode passar perfume nele" e, antes que eu pudesse acusar, minha mãe diz "nossa mas eu adooooro passar perfume, ela que não passa" - ela olhou com desprezo por cima dos óculos. Até aí eu já havia adquirido carteirinha do fã-clube. Dissecando os últimos acontecimentos para descobrir o que causou a alergia, eu tenho um insight: deixo as roupas do Leon com a minha mãe para lavar pois aqui não há espaço, e ela é a louca do cheiro. Mistério resolvido: ela afirma que, como sabe que eu não passo perfume nele, encheu a roupa de amaciante para ficar cheirosinho. A médica olha com mais desaprovação ainda e diz: "é isso. não pode usar amaciante nem colocar perfume, perfume só uma ou duas gotinhas e olhe lá". Eu adiciono: "ou deixar o bebê com o cheirinho natural que é bem mais gostoso". Ela dá a primeira risada da sessão e diz: "é, isso mesmo". 
Lidar com gente deve ser um saco. Admiro quem nem tenta começar o papo furado e vai logo para o x da questão, sem lenga-lenga. E essa foi uma das primeiras médicas capazes disso.
NOTA: ♥♥♥♥


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