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setembro 26, 2013

Como eu desaprendi a me prender

Jeffrey Alan Love, Polyamory
Todas as pessoas são distintas nos mais diferentes níveis. Elas reagem às coisas de maneira diferente, vivenciam as mesmas experiências com outros olhares, sentem os mesmos lugares com sua carga emocional única.
Mas quando se fala de relacionamentos amorosos se compra um modelo batido que, quando questionado, pode ser visto até como algo ofensivo.
Há a monogamia. Por facilidade, praticidade, interesses da época, ela é o modelo aceito, vendido e comprado na nossa sociedade. Cada um com sua metade da laranja sendo feliz para todo o sempre. Seria ótimo se fosse assim mas, mais uma vez, pessoas são diferentes. Posto isso, a inflexibilidade de um único modelo pode tornar as coisas um tanto complicadas.
Por escolha pessoal resolvi questionar e impor mudanças em minha maneira de lidar com relacionamentos. Como acho que é uma reflexão válida a se fazer, compartilho meu processo aqui.
Acredito que o amor sejam as ondas que fluem livremente pelo universo. Tudo está impregnado de amor, só é necessário se sintonizar na frequência certa. É um sentimento inerentemente bom que é feito para ser sentido em sua plenitude por nós. Mas nos fechamos para isso, achamos mais importante categorizá-lo em mil e uma vertentes: "amor fraternal", "admirar as estrelas", "amizade", "saudosismo" e, a que geralmente damos mais importância, "amor romântico". 
Não nego a importância da existência dessa categorização, mas de certa maneira ela acabou restringindo demais as maneiras de amar. Achamos que algo é preto ou é branco, e quando ele tem nuances de cinza ficamos confusos. Talvez por isso é tão normal amar vários amigos/amar ambos os pais mas só se permitir ter um amor romântico para a vida toda e repetir aquela frase que diz que se você ama duas pessoas é porque nunca amou nenhuma das duas em primeiro lugar. 
Mas não é bem assim.
E o processo pelo qual passei para entender e incorporar o modelo de relacionamento livre na minha vida começa aí:


Se eu sou capaz de sentir algo tão rico, tão benéfico e tão grande, por que vou restringi-lo a uma pessoa só?
É visível o que o amor faz conosco, ele nos muda biologicamente, nos fazendo liberar hormônios que nos fazem sentir bem, melhorando o humor e até a aparência física. Dizem que amar faz mal, traz sofrimento, mas só vejo isso acontecer quando aliado à sentimentos de insegurança e/ou ansiedade. Em condições normais, ele só tem como edificar. E por que reservar isso à uma pessoa só? Por que não espalhar por aí?

O amor e a meritocracia
O argumento básico que se dá para a não-difusão do amor é que é preciso merecê-lo. Mas... como se faz para merecer amor? Você ama por coisas estúpidas, como um sorriso meio torto em uma tarde de outono, palavras engraçadas durante um momento de tensão ou a maneira como a pessoa usa umas meias divertidas. Não é algo que faça sentido para ser passível de avaliação e evaluação. Não é como se o amor fosse um recurso não-renovável, ele é a liga que constitui o universo, não existe maneira de gastá-lo, logo, a preocupação excessiva em preservá-lo para quem merece não faz o menor sentido. Todos merecem-no.

Colocando o ego no seu devido lugar
Assim como o amor não é meritocrático nem quantitativo, você não deve achar que merece recebê-lo mais ou menos que um outro alguém. O ego às vezes nos faz ter umas viagens mirabolantes de "por que ele e não eu?", nos colocando muito à frente de qualquer outro ser humano. É necessário muita empatia para se distanciar de pensamentos assim e, consequentemente, acalmar o ego. Acalmando-o, você já está a um grande passo de distanciar o ciúme da sua vida.

O ciúme
Ele infelizmente chega a ser o combustível de muitos relacionamentos e o principal empecilho na constituição de um relacionamento livre. A primeira coisa que sempre me perguntam é: "e você não sente ciúme?" ou, na versão machista, perguntam para meu parceiro "e você não liga de ser corno?". Para começar é sempre bom aceitar que o ciúme é algo ruim. Não é essencial em um relacionamento, não é bonito, não é nada, é só o ego tomando conta do seu corpo e te fazendo agir estupidamente. Ele está diretamente atrelado ao sentimento de posse. O primeiro passo para a desconstrução disso é começar a questionar todos os seus sentimentos. Quando sentir ciúme, chafurde fundo na alma e descubra o que exatamente lhe incomoda nessa situação. Evite deixá-lo sair, mantenha-no preso aos seus pensamentos. Fazendo isso pela primeira vez fica bem mais fácil de se repetir, repetir, repetir, até os resquícios desse sentimento irracional quase não existirem mais. Em alguns casos nunca se extingue por completo, mas sempre é possível controlá-lo. Não há motivos para alimentar sentimentos que só farão mal a você e ao seu relacionamento.

Afetos distintos não são excludentes
Se seu objeto de afeto também sente amor por outra pessoa, não há porque se preocupar com o sentimento dela por você pois, por mais que pintem essa imagem e nos façam acreditar nisso desde crianças, há sim espaço para se sentir assim por mais de uma pessoa. Uma coisa não exclui a outra. Se alguém ama outro, não quer dizer que também não pode sentir o mesmo por você. E assim em diante...


Deixar ser
Uma das lições mais importantes não só para um relacionamento romântico, mas para a vida, é o "deixar ser". Deixar as pessoas livres para se mover, sem tentar restringir, impor, enfiar expectativas goela abaixo. Não há motivos para interferir no livre movimento dos outros quando não se é requisitado. Deixar ser não esperando nada de ninguém e ser deixada ser para viver uma vida proveitosa também.


Esse texto expressa somente a minha visão individual sobre o assunto. Para mais informações sobre amor livre, relacionamentos abertos, poliamor e reticências, recomendo os seguintes links:
Rede de relações livres
esse texto da Paula Mariá
O mini-documentário Poliamor

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