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julho 22, 2013

O que não me contaram (ou contaram e preferi ignorar) sobre maternidade.

Há quase três meses postei aqui o meu relato de parto.
Agora eu conto o que aconteceu nesse meio tempo.

O ato de maternar é uma intensa viagem para dentro de si mesma, ao mesmo tempo em que exige uma presença exterior constante. Há alguns meses vivo nessa dualidade, experimentando uma gama sem fim de sensações e situações que eu não esperava encontrar pela frente. Ou que sabia que iria encontrar mas na hora que senti levei um choque mesmo assim.

A solidão
Eu sempre gostei da minha própria companhia, de ficar sozinha no meu canto. Achei que a companhia constante do Leon iria me deixar maluca por espaço próprio, mas quando ela foi imposta à mim senti exatamente o contrário: solidão. Nos primeiros meses de vida, ainda não há muito bem uma distinção de onde termina o seu eu e começa o outro. É tudo uma coisa só. As emoções de um refletem no outro, até as emoções mais contidas e enterradas. E nós paramos no tempo para viver de amor. Posto assim parece algo bonito, mas quando paramos no tempo as outras pessoas continuam seguindo suas vidas e, ao mesmo tempo em que estamos borbulhando de amor e achamos que só isso basta, a observação do mundo lá fora nos faz tristes. Há a sensação constante de que você foi abandonado pelo mundo, quando na verdade o inverso é que ocorreu. Me peguei chorando algumas vezes após algum amigo que eu acreditava não gostar mais de mim vir dizer que sentia saudade. Parece bobo, parece irracional, mas é um baque tremendo.

Não existem noites mal dormidas, existe a insistência em fazer as coisas do jeito mais difícil.
Saldo de noites mal dormidas que tive = uma ou duas. Em três meses. O motivo é muito simples: sabendo que ele necessita mamar de tempos em tempos e que minha presença é completamente acalentadora para ele, qual a solução mais racional? Dormir com ele todas as noites, é claro. Isso fortalece o vínculo de uma maneira tão bonita que ultimamente é só eu sentir sono e me deitar para dormir que ele dorme também. E só acorda após eu acordar. Só dorme mal quem enfia o bebê em um berço em um quarto separado, e tenho dito.

A produtividade não diminui, ela triplica. 
Talvez isso seja algo particular, mas nos meses que precederam a chegada do bebê eu estava completamente apática, sem vontade de nada. Passava os dias livre e a única coisa que conseguia fazer era ficar deitada na cama. Hoje, como sinto que tenho pouco tempo, quero fazer tudo. E anda funcionando muito bem. Estou desenhando, bordando, gerenciando grupos superpopulosos no facebook, pintando coisas, fazendo bijuterias para vender (em breve~), escrevendo em blog, fazendo álbum do bebê, andando pelo parque, conversando com pessoas na rua, fazendo amigos e influenciando pessoas. Só não sobra tempo para arrumar a casa, é claro. Acho que o medo de me tornar inútil me fez "útil".

Cólicas do bebê - a mentira
Eu sempre me perguntava como as pessoas tinham tanta certeza de que o bebê estava sentindo cólicas, se ele não consegue exprimir isso. O grande segredo é: elas não têm. É só a suposição padrão que se faz quando o bebê chora demais. Mas bebês que choram demais o fazem, principalmente, pela falta de acalento. É claro que é mais fácil assumir que é cólica e deixá-lo chorando até passar. Não que não existam dores, mas a famosa Cólica™ é resignação de quem tem preguiça de pensar um pouquinho mais no que pode estar ocorrendo. Leon raramente sente dores. Chora por fome, por sono, por desconforto, por vontade de calor humano (por leite jorrando na cara também). Vontades essas que são prontamente atendidas, o fazendo um bebê tranquilinho de se conviver.

Desprendimento físico
Como mulher-inserida-na-sociedade-ocidental eu tinha minhas travas em relação à aparência. Precisava estar minimamente depilada para mostrar as pernas. Precisava estar penteada. Precisava estar com uma roupa bonita. Nunca me sentia confortável com meu próprio corpo. Enfim, deveria estar "apresentável à sociedade". Mas depois de vivenciar todo seu potencial - gestar, parir, se recuperar -, seu corpo passa a ser, definitivamente, seu. Quando ele não é seu você deixa as pessoas ditarem o que é mais bonito, o que é aceitável, o que pode ser ou o que não pode. Mas quando ele é seu, ah, dane-se tudo. Não me sinto mais desconfortável em fazer um monte de coisas que antes me sufocariam.

Amor demais assusta
Quando se está apaixonado não se tem pudores para falar de amor. Aquele amor sempre é gigante, infinito, interminável. Mas na maioria das vezes não o é. E, mesmo se for, amor romântico vem gradativamente. Amor fraterno é quase inato. Amor pelos pais idem. Mas há um amor esquisito, brutal e assustador: o amor materno. Ele não chega aos pouquinhos, fazendo chamego. Ele chega dando um soco no seu estômago e te fazendo se desesperar pois é inaceitável existir tanto amor assim fora de você, tanto amor depositado em um outro alguém. Outro alguém que não consegue nem se alimentar sozinho. Confesso que passei as primeiras semanas chorando de amor todas as noites. Amor assusta.

E, por fim...
A vida invariavelmente volta à sua normalidade. Mas nunca volta ao normal.

8 comentários:

  1. Uma das coisas mais bonitas, que mais tocaram algo em mim, nesses meus dezoito anos de existência.

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  2. Que lindo, Sacha! Fico feliz que alguém consiga expressar em palavras o que eu só consigo sentir sendo mãe de Júlia. Beijo em vc e no Leon ♥ (Carol Accioly)

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  3. Ai sacha, você é fantástica e escreve maravilhosamente bem. Já pensou em escrever um livro sobre tuas experiências como mulher/mãe/feminista/ser humano? eu compraria! (Lucy)

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  4. Que texto e sensações lindas! *-*

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  5. Chorei com esse final. <3 Adoro o que você escreve!

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