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maio 07, 2013

Meu relato de parto

Acordei de sonhos intranquilos às nove da manhã do feriado com um barulho "PLOC" vindo de dentro de mim. Como estava na quadragésima semana, toda e qualquer alteração corporal vinha acompanhada de um "será!?". Mas como não estava encharcada como já havia visto em filmes, ignorei. Levantei para ir ao banheiro e, sentada no vaso, notei que não era só xixi que estava saindo. Quando me levantei senti um pouco de água escorrendo pelas pernas e só consegui sorrir e pensar "é hoje". A água continuou a escorrer involuntariamente e fui tomar um banho quentinho pra celebrar a chegada do novo terrestre. Dentro do box comecei a sentir uma contraçãozinha cá e outra acolá e lembrei que era melhor começar a cronometrá-las, então gritei pelo Isaac, que ainda estava sonolento, e informei-o do ocorrido. Ele levantou em um pulo fazendo um monte de perguntas enquanto eu ria do desespero dele debaixo da água quentinha. Saí do banho, coloquei um absorvente porque a água não parava de descer, e comecei a cronometrar as leves contrações. Duas a cada dez minutos, com duração de trinta a quarenta segundos cada. Avisei alguns amigos, que ficaram em alvoroço. O Isaac disse que seu cigarro havia acabado e ele iria precisar de muitos cigarros pra passar o dia, então saímos para comprar. O sol estava forte, as pessoas estavam caminhando no parque, as árvores estavam muito bonitas e eu não parava de escorrer. Quando chegamos no posto a água tinha encharcado toda a minha perna e quando fui usar o banheiro o absorvente caiu, de tão molhado. Foi uma sensação bem incômoda. As contrações ficavam mais fortes, me fazendo ter que dar uma paradinha no percurso para casa sempre que chegavam.
Liguei para o meu pai avisando do ocorrido pois ele seria minha carona até a Casa de Parto. É engraçado ver todos à sua volta em desespero enquanto você, que é quem vai passar pela experiência, está tranquilíssima. Ele chegou um tanto esbaforido enquanto eu morria de rir. Pegamos o carro de fomos para São Sebastião, percurso que demora cerca de meia hora. No caminho as contrações foram ficando mais intensas e passei a ficar mais introspectiva, me concentrei em mim mesma e não conseguia acompanhar a conversa paralela e ficava irritada se insistiam em me fazer ouvi-la.
Assim que cheguei na Casa de Parto fui recepcionada por duas enfermeiras adoráveis cujo nome não me recordo porque não estava muito ligada no mundo nesse dia. Ainda escorrendo água, fui fazer a triagem. Eles são rigorosos quanto a alguns aspectos, já que não há acompanhamento de médicos durante o processo. O tamanho da minha barriga estava no limite. Na hora de fazer o exame de toque descubro que ainda estou com 2 para 3 cm de dilatação, o que me assustou um pouco, pois as contrações já estavam ficando bem dolorosas. Eu imaginava que essa fosse a dor de 4 ou 5 cm. As enfermeiras me recomendaram ir almoçar algo e voltar dali a uma hora para checar o desenvolvimento. Elas sugeriram alguns restaurantes próximos e meu pai ficou tentando me fazer tomar decisões, o que me deixou muito irritada, pois eu não estava em estado de espírito para tal. Cada vez que a dor chegava eu mergulhava mais fundo dentro de mim mesma e não queria lembrar que existia um mundo externo. Fomos a um restaurante, fizemos o pedido e não pudemos não soltar um "tenta trazer rápido que ela está em trabalho de parto". Comi um filé a parmegiana com um suco de limão, comida essa que prontamente vomitei durante uma contração na saída do restaurante.
Voltando à Casa de Parto, a enfermeira vê que estou evoluindo bem, já estava com três centímetros, mas ainda não poderia ser internada pois eles só admitem a partir dos quatro centímetros. De qualquer maneira ela me deixou entrar, era feriado, não havia ninguém além dos enfermeiros por lá. Entrei e fui logo pra ducha quente dar uma relaxada. Passei uns bons minutos lá dentro e observei que as contrações começaram a ficar mais e mais dolorosas. Quanto mais dor, mais introspecção. Saí de lá e as enfermeiras haviam preparado um chá de cravo com canela para estimular as contrações. Elas me mostraram todos os aparatos da sala que auxiliariam a descida do bebê - o cavalinho, a bola, a barra. Peguei o chá e fui para o cavalinho, que é uma cadeirinha da balanço cuja movimentação ajuda na evolução do parto. Não conseguia mais me concentrar em beber o chá, então o deixei de lado. Meus pais estavam na sala e expulsei-os para ficar somente com o Isaac, comecei a sentir uma conexão muito forte com ele naquele momento e percebi que ele seria essencial para o meu relaxamento. A enfermeira o ensinou uma massagem para fazer nas minhas costas quando a contração viesse, coisa que ele fez religiosamente até o final.
Comecei a alternar entre o cavalinho, a bola e caminhadas. Até que em certo momento precisei começar a vocalizar minha dor, de tão intensas que as contrações ficavam. A enfermeira foi checar a dilatação e estava em quatro para cinco centímetros, eu estava oficialmente internada lá para parir. Com grande surpresa, descobri que a banheira estava finalmente funcionando (ela passou meses inativa) e informei às enfermeiras que gostaria de ter o parto dentro d'água. As contrações começaram a me cansar fisicamente, eu só queria dormir, mas precisava fazer a coisa evoluir pois estava com a bolsa rota desde muito cedo e se passasse de doze horas nesse estado teria que ir pro hospital tomar antibióticos.
Resolvi tomar mais uma ducha quente e foi lá que as coisas tomaram proporções absurdas. A dor vinha muito intensamente, eu só conseguia gritar e mal tinha noção do tempo. Mas notei que, de maneira curiosa, durante as contrações eu só queria morrer e desistir, mas depois que elas terminavam eu sentia que poderia aguentar mais trinta daquelas. O sentimento pós-contração é, inclusive, uma das coisas mais loucas que já experimentei. Sentia como se tivesse acabado de ter um orgasmo dos fortes. É aquela coisa fatigante mas ao mesmo tempo recompensadora.
Saí, caminhei um pouco, fiquei extremamente introspectiva. Meus pais apareciam na sala para checar como eu estava e eu corria para longe para ter as contrações. Me sentia desconfortável tendo-as na frente de alguém que não o Isaac. Nós atingimos um pico de intimidade nunca antes visto nessa noite. Eu não precisava me comunicar verbalmente, ele simplesmente entendia o que eu precisava. A dor excruciante era aliviada um pouco pelo conforto de tê-lo logo ao lado.
Foi um processo doloroso, mas bonito. Os instintos me mandavam dançar, rebolar, vociferar, e eu o fazia prontamente. Era uma energia até meio sexual, eu diria. No entanto, quando a banheira já estava cheia e eu já aguardava a chegada de Leon em poucas horas, a enfermeira foi fazer o toque e notou que aquilo não era a cabeça dele e, sim, a bunda! Ele estava pélvico e eles não realizam partos pélvicos por lá, então eu deveria ser transferida para o hospital do Paranoá para fazer uma cesárea. Minha dilatação estava em nove centímetros, eu estava quase na fase expulsiva. Tive que deitar na maca e esperar a ambulância chegar para me transferir. Não sei muito bem o que senti na hora, mas não fiquei arrasada, só queria que terminasse logo pois estava exausta. As contrações enquanto deitada eram extremamente mais fortes e dolorosas, me fazendo vomitar. E eu teria que passar muito tempo deitada até chegar no hospital, então me encolhi de lado e comecei fazer um esforço mental para manter as dores longe, agora que elas seriam inúteis. Ação que surpreendentemente deu muito certo, uma vez que no caminho para o hospital só senti três leves contrações.
Eu estava atordoada de dor, com a situação, com tudo. Não queria que tudo acabasse em uma cesárea, mas queria que acabasse logo. Chegando lá me levaram correndo para o centro cirúrgico e barraram a entrada do Isaac, coisa que me deixou um pouco insegura, mas no final eu estava relaxada. Só conseguia pensar que dentro de minutos iria conhecer externamente aquela coisinha que me consumiu por nove meses.
Sentei na maca, me aplicaram a anestesia. Fui tratada bem, mas de maneira fria e protocolar. Deitei e começaram os preparativos para a cirurgia. Deixei de sentir os membros inferiores e achei muito esquisito. Quando notei, já estavam mexendo nos meus órgãos internos e a sensação era bizarra. De repente senti que haviam atingido o útero e estavam puxando uma pessoinha que estava abraçadinha no meu útero, com o bumbum virado pra todos. Meu coração se partiu ao ouvi-lo engasgar quando foi puxado pra fora. Disseram que iam levá-lo para fazer os procedimentos padrão mas logo me mostrariam. Enquanto isso me suturavam e eu só conseguia tremer de frio. Estava cansada de tanto tremer. Ouvi do lado de fora várias enfermeiras exclamando "que bebê mais lindo! deixa eu segurar!" e fiquei enfurecida e deprimida por não poder estar com ele nesse momento, por não poder segurá-lo nem acalmá-lo. Alguém chegou para me mostrá-lo, eu estava muito ocupada tremendo e sendo suturada para conseguir fazer qualquer outra coisa, mas fitei seus olhões abertos e dei um beijo no seu bochechão enorme. Era realmente esquisito conceber a ideia de que aquilo tinha saído de dentro de mim, acho que até hoje ainda não me acostumei a isso.
Passei vários minutos sendo suturada, tremendo de frio e odiando cada instante. Queria sair, queria ver  o bebê, queria dar de mamar a ele, queria ver meus parentes. Quando finalmente saí, tive que ficar encostada em um canto esperando o efeito da anestesia passar e quando colocaram Leon ao meu lado fiquei extremamente frustrada pois não conseguia me virar para dar o peito à ele. Só depois de muitos minutos consegui, e fiquei ali eternamente fitando o seu rostinho bonito e bochechudo.

Mais tarde, deitada na maca para dormir com ele, me senti frustrada por não poder ter apresentado-lhe o mundo da maneira mais calorosa possível. Mas então lembrei que poderia ser perigoso para ele não sair da maneira que saiu e que ainda tenho muitos anos pela frente para apresentá-lo às maravilhas da vida. ♥




































(informações sobre a casa de parto de são sebastião podem ser obtidas aqui)

15 comentários:

  1. Acho que isso foi a coisa mais bonita que eu li nas últimas semanas.

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  2. Meu olho levemente suou enquanto eu lia, mas foi porque eu tava comendo uma pimenta e acabei pisando numa peça de lego...

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  3. "e que ainda tenho muitos anos pela frente para apresentá-lo às maravilhas da vida. ♥" Que lindo, Sacha. Mesmo, mesmo.

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  4. ahhh que amorrrr ♥ socorro ;-;

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  5. Ai, Sacha... lágrimas rolando bochechas a baixo. ♥
    Deveras lindo, obrigada por compartilhar esse momento incrível.
    Good vibesss!

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  6. nossa, que lindo, só as lágrimas por aqui.

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  7. Saaachaaaa você me fez choraaar. :~

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  8. Nhaaaaiii!!! Lindíssimo o relato!
    Inevitavelmente lembrei do meu parto, aquela sensação louca de "pelamor de dels, tira isso daqui, eu quero morreeeeer!!!" misturada com "nossa, isso muito bom! vamos lá, que eu sou foda e consigo!".
    Cê teve um parto lindo e cheio de amor... tô aqui vibrando por você!
    E, sabe, demora um tempo pra se acostumar com o fato de que aquela coisa viva, remexenta e cagona saiu de dentro da pança. Te dizer que até hj me bate uma estranheza!
    Toda a felicidade do mundo procê e o novo terráqueo bochechudo delícia! ♥ ;*

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  9. Ah! Lindo relato, cara. Também chorei um monte aqui...
    Eu também tive o momento "estou feliz e tranquila e todos estão surtados" hahaha, acho que quer dizer que você estava bem mesmo para ganhar o seu bebê leãozinho lindo. (: Adorei a parte que o Isaac ficou fazendo massagem! <3
    E é sim sexual! É o sexo que acaba em parto, é uma "continuação" do sexo ou algo assim kkkk...
    Quando tudo estiver mais tranquilo e a poeira estiver abaixado, dá um sinal que eu e a Clá gostaríamos de fazer uma visitinha! Muito legal, cara, vc foi ótima, parabéns! =*

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  10. Parabéns por tudo! Quanta coisa linda e perfeita nesse momento da vida!!!Só quero abraçar vocês *__________*

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  11. Que Relato lindo Sacha!!! Você foi pra partolândia!! Você se entregou ao processo natural e fisiológico do seu corpo que sabia exatamente o que fazerm, se inundou de hormônios deliciosos do parto, a ocitocina!! Você foi uma parideira nata!! Vocalizou, gemeu, rebolou.. buscou o Isaac, quis fizer isolada, na intimidade, como qualquer mamífera parindo! E sim, é muito sexual também! É vida! É morte, é sexo e entrega! Parto mexe com a gente! É muito legal como o processo de dor faz a gente ir pra alfa, e a dor faz nosso corpo responder com hormonios deliciosos que deixam a gente dopada! hehehehe
    No final a gente cansa e só quer que acabe logo mesmo! Mas fiquei feliz que você teve um trabalho de parto lindo! E deu tempo de transferir e tudo o mais. Com certeza essa experiência toda que você teve, essa transformação que o trabalho de parto trás, e finalmente ver o rostinho do Leon perto de você, isso muda a gente! Isso nos fortalece! É péssimo o atendimento frio e protocolar do paranoá, e sinto muito que o Isaac não pode estar ao seu lado, mas vocês viveram o trabalho de parto juntos, em união, simbiose, entendimento silencioso, e isso é lindo! isso nos transforma e nos une. E o Leon com certeza chegou pra transformar a vida de vocês! Felicidades e obrigada pelo relato, adorei te conhecer! *fiquei brega de emoção lendo seu relato kkkk

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  12. Que... Coisa mais linda! Eu nunca tinha visto/lido algum relato tão detalhado sobre como é ter um bebê e pensar sobre isso me da calafrios porque eu quero ter um filho, mas tenho medo de sentir dor e isso sempre me fez optar por fugir de uma gravidez. Depois de ler o trecho "Então me encolhi de lado e comecei fazer um esforço mental para manter as dores longe, agora que elas seriam inúteis. Ação que surpreendentemente deu muito certo, uma vez que no caminho para o hospital só senti três leves contrações." me senti, de certa forma, segura em relação a isso tudo. Agora isso parece muito mais natural, passageiro e relevante (a dor). Quanto todo ao resto... Achei muito legal a maneira como você descreveu cada passinho.
    Parabéns pelo lindo bebê, Sasha!

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  13. Lindo lindo relato! parabéns pela coragem de leoa! e pelo companheirismo do seu leão e bem vindo ao mundo Leon! :D

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