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abril 14, 2013

Nem só de pés inchados se vive

Aos vinte e um anos e nenhuma perspectiva de vida, me vi grávida. De início aceitei muito mal e já não podia abortar pois era muito tarde. Passei pela fase mais obscura da minha vida, mas tudo isso magicamente evoluiu para um dos melhores sentimentos já transpassados em mim.
Já não dá para olhar para baixo e ver meus pés, assim como já não dá para ouvir um bebê chorando e não achar lindo. Fico me perguntando quais hormônios agem nesse tipo de comportamento irracional, aonde você não consegue se levantar da cama sem ajuda mas o simples vislumbrar de mãozinhas rechonchudas deixa toda a situação agradável.
aos seis meses
Ele ainda não tem nome, mas responde pela alcunha de Chicken McBaby e, ao contrário do que ela sugere, é muito amado e nada industrializado. Tanto é que escolhi parir da maneira mais natural e humanizada possível, mas isso é assunto para outra hora.
Agora cheguei na reta dos nove meses e nunca imaginei que pudesse estar tão tranquila. Só quero que saia logo para poder me locomover de maneira digna de novo. E eventualmente enxergar as pontas dos pés. E deixar de levar chute nas costelas.

Mas meu caderninho já ouviu muito sobre as angústias da gravidez, aqui quero relatar a beleza ou pelo menos as vantagens que se recebe ao ter um óvulo fecundado:


Caixa preferencial

Esse é de conhecimento geral, grávidas furam fila. Quando você está com uma barriga de oito meses e um peso imenso na região frontal isso já não é uma vantagem e passa a ser necessidade, mas quando está na reta dos cinco meses com uma barriguinha proeminente o suficiente para não te questionarem mas não tão grande para atrapalhar sua existência, essa ferramenta social é uma bênção para os preguiçosos. Na primeira vez em que usufrui disso estava na fase em que não gostava nem de usar a palavra "gravidez" em voz alta, tamanha a negação. Fui em uma loja olhar algumas roupas, pois a barriga já estava saltando pra fora e, na hora de pagar, resolvi ser ousada e ir para a fila preferencial. E lá descobri um lugar lindo e cheio de amor. A velhinha que estava atrás de mim apenas perguntou de quantas semanas eu estava antes de começar a falar sobre seus filhos e sobre como bebês são coisas boas. A caixa sorriu. As pessoas na fila normal pareciam contentes. Na fila do caixa preferencial tudo adquire ares de filme da Disney. Mas sou tapada e mesmo agora aos noves meses costumo esquecer dessa regalia, tanto que só recentemente descobri que posso furar todas as filas do restaurante universitário. Às vezes queria ter vivido todos os nove meses de gravidez pra me aproveitar mais da situação, mas então lembro do desconforto constante e me calo.
aos oito meses

Comida

Se comer é um dos seus maiores prazeres da vida, recomendo fortemente a gravidez. Quando há feto na barriga não há julgamento, não há "mas você vai comer TUDO ISSO?", não há "será que você já não está muito gorda pra continuar comendo assim?". Só existe gente querendo te dar mais sustância pro futuro bebê nascer saudável. Ninguém te nega comida. E se quiser algo, é só gritar que é um desejo de grávida que o quitute de sua escolha será lhe servido em mãos. Minha mãe nunca me dá ovo de páscoa porque sou "gorda", mas esse ano apelei para um "seu netinho está pedindo" e ganhei um belo ovo recheado da Cacau Show. Uma amiga, assim que soube da gravidez, bateu aqui na porta de casa com uma torta de chocolate com morangos inteirinha só pra mim. E assim vai.

Telepatia

Há um ser em simbiose contigo. Se se esforçar um pouquinho, poderá notar que ocorre um certo nível de telepatia entre você e a pessoinha em formação. De início eu achava que era doideira de grávida, mas com o  tempo e as circunstâncias passei a reparar que, de fato, conseguia dividir os pensamentos e ouvir o que ele tinha a dizer, ou ao menos mostrar através de sensações. Ele fica feliz quando alguém faz carinho na barriga, muito feliz. Ele fica feliz quando os pais o dão atenção. Ele sente uma fome diferente da minha. Ele fica frustrado quando é rejeitado pelos outros. Já sei até sua preferência sexual. São sentimentos distintos dos meus que têm o poder de me afetar muito. Da mesma maneira, ocorre o contrário. Consigo influenciá-lo com os meus sentimentos e desejos. 
Ele só não me ajudou, até agora, a escolher seu próprio nome. Está sendo uma tarefa difícil.

Área de desenho livre

O corpo inteiro é uma zona de desenho livre, vamos lá. Mas você só se sente à vontade para desenhar & ser desenhado em momentos como o da gravidez. Se eu chegar com um estojo com canetinhas em uma festa e pedir pra todos desenharem nas minhas costas ouvirei umas risadinhas, no máximo. Já se faço o mesmo ostentando um barrigão, a cena ao lado acontece. E todo o contato humano deixa o bebê muito contente. Ao mesmo tempo evidencia quão perturbados seus amigos são por desenharem mini-fetos e duendes na sua barriga. 

Ostentação do barrigão

Não existe imposição de padrão de beleza em barrigão de grávida. Dá pra andar linda, leve e com ele aparecendo junto de todas as estrias que ainda assim abrirão sorrisões ao vê-lo. Existem momentos de baixa autoestima, mas eles são facilmente aniquilados pelo poder que é sair na rua mostrando a barriga. 

Empoderamento

Quando você é mulher em uma sociedade patriarcal se sente oprimida desde sempre. Mas então, em certo momento, se vê diante do poder que é gerar uma vida. Algumas se amedrontam e não se deixam levar pelo sentimento, continuam reclusas, aceitando opiniões de médicos e de revistas, acreditando que não sabem nada mesmo e que os outros é que entendem o que é melhor pra ela. 
Já outras sentem o gostinho do poder. Deleitam-se com o poder. Dominam o poder. E aí se tornam perigosas. Sabem instintivamente o que é melhor para ela, para seu filho, para seu parto. Não se deixam guiar por revistas, por médicos homens que acreditam ditar o que é melhor. Se sentem lindas, radiantes, estonteantes e gostam de mostrar para quem quiser ver. E têm recursos de onde tirar esse poder. Nada pode ser mais assustador para o patriarcado do que uma grávida empoderada. 
Eu, apesar de um ou outro desnível, me sinto bastante empoderada. E é bonito ver como inspira e assusta ao mesmo tempo. 

8 comentários:

  1. que delícia de post, sachinha!
    tô um pouco contrariada por você não aproveitar com mais frequência a fila preferencial. mais do que andar naquele carrinho de supermercado motorizado por ter quebrado a perna, o sonho de todo mundo é ter algo que possibilite o ingresso na filha preferencial sem represálias.

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  2. Que texto legal, Sacha! Confesso que antes morria de medo de ficar grávida um dia, mas os seus relatos só me deixam mais relaxada com esse assunto. Muitas felicidades pra você e pro mcbaby <3

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    1. Awn, que bom!
      É como eu digo: eu sempre achei que o mundo não precisasse de mais gente, sempre fui extremamente contra povoá-lo ainda mais. Mas não! O mundo precisa SIM de mais gente! De mais gente linda, de mais gente com cabeça boa, de mais filhos da era de aquário pra transformar tudo :)

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  3. Faço das palavras da Anônima as minhas,
    Sempre coloquei a ideia de gravidez a mil km de distância, pensava "Eu gravida?Nunca, prefiro adotar" mas seus relatos sobre o mcbaby tem sido uma experiência mágica pra mim.
    Hoje, mais do que em qualquer outra época da minha vida tenho pensando em ser mãe e de preferência com parto humanizado!♥

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  4. ♥ ♥ ♥

    Ai, Sacha, fico toda bobona lendo essas coisas! Ao mesmo tempo que sinto falta da minha mega pança, penso também como esse lance de ver a cara amassada da sua cria é a maior delicia do mundo! E aí fico me perguntando que fucking mágica é essa de hormônios que nos fazem ver o lado bom de um ser que antes vivia como um parasita e depois simplesmente não dá sossego... Mas o fato é que o amor acontece. Tudo muito louco, tudo muito lindo!
    E você, nossa, você tá uma maravilhosa!!!

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  5. Que surpresa boa foi me deparar com seu blog, Sacha! Emana uma energia fraterna e transformadora contagiante. Parabéns pela trajetória, desejo toda a felicidade pra você e seu Chicken McBaby! (Winie)

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    1. Ei Winie, que legal você por aqui :)
      Obrigada pelos votos, desejo o mesmíssimo pra ti. ♥

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  6. Hahaha eu fiquei com saudade da minha gravidez agora...
    Ainda vai longe isso: o preferencial continua, o lance das comidas continua (amamentar dá a maior fome, mas, a medida que o bb vai crescendo e começa, inclusive a comer outras coisas, vai voltando ao "Você tá gordaaaa! Fulana não fechou a boca e nunca voltou a barriga dela! Você devia ter usado cinta!" rsrsrs), e as vovozinhas e criancinhas na rua vão te olhar com mais amor ainda porque vc é 'mamãe' e tem um nenê bochechudo.. hahahaha
    Sacha, tudo de bom pra você, o Leon e todo mundo por aí! =*

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